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Mania de ser natural Quem diria que optar por comida natural pode se tornar um problema... É que em excesso, beirando a obsessão, essa atitude ganha nome de distúrbio: ortorexia. entenda o que signifi ca e saiba se você corre algum risco
YARA ACHÔA Foto: Priscila Prade

A conscientização de se ter qualidade de vida e alimentação saudável entrou definitivamente em nosso cotidiano. Quem é que nunca parou diante de um rótulo para verificar se o produto é livre de gordura trans? Ou até pagou um pouco mais para ter uma fresca salada de verduras orgânicas? Recente pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) mostra que a principal preocupação de 43% dos brasileiros é a saúde. Os “politicamente saudáveis” pregam: nada de gorduras, transgênicos, cafeína, comidas prontas, com aditivos ou substâncias químicas. Só que há uma linha tênue que separa o desejo por um cardápio equilibrado de uma doença. Quando a preocupação vira obsessão, para o médico americano Steven Bratman, autor de Health Food Junkies (Viciados em Comida Saudável), ela ganha o nome de ortorexia.
| Uma dieta de qualidade – equilibrada em nutrientes e com alimentos provenientes de fontes seguras, não somente naturais – traz, como benefícios, saúde, longevidade, controle do peso, bem-estar e prazer |
“A ortorexia nervosa é uma doença ainda não reconhecida pela Organização Mundial de Saúde (OMS), nem figura nos manuais de psiquiatria. É classificada como um Transtorno Alimentar Não Especificado (Tane) ou Transtorno Alimentar Sem Outra Especificação (TASOE). Os portadores desse distúrbio vivem examinando o que irão comer, provocando um efeito contrário ao de uma dieta saudável, ou seja, desequilíbrio alimentar”, explica a nutricionista Tânia Rodrigues, da RGNutri Consultoria Nutricional (SP). O distúrbio surgiu como uma distorção da idéia de que a comida natural é a melhor forma de alimentar corpo e alma. Mas os especialistas apontam ainda outros fatores que podem desencadear esse mal: o culto ao corpo e a excessiva publicidade de produtos supostamente saudáveis ou enriquecidos. O problema é que os ortoréxicos levam isso a sério demais. E, por causa das restrições ao que colocam no prato, acabam convivendo apenas com aqueles que dividem o mesmo cardápio ou consomem horas e horas pensando no que e como comer. A preocupação com a comida, então, chega a ser paranóica e a pessoa fica insuportável. O argumento principal dos que sofrem dessa nova patologia é o de não prejudicar a saúde a qualquer preço.Essa obsessão já estaria afetando 2% da população de países como os Estados Unidos. O professor de Medicina Preventiva e Saúde Pública da Universidade de Navarra, na Espanha, Javier Aranceta conta que a ortorexia é vista em seu país como uma “moda emergente” de “autistas alimentícios com tendência à infelicidade”. Para o especialista trata-se de um “fenômeno crescente”, que logo poderá ser equiparado a outros males como a anorexia, a bulimia e até mesmo a obesidade.
comportamento anti-social
O problema se inicia quando a preocupação com a alimentação começa a tomar grande parte do dia desses indivíduos. Os ortoréxicos não medem esforços para comprar seus alimentos: percorrem longas distâncias e pagam valores muito superiores aos dos produtos comuns. Além disto, se recusam a comer na casa de amigos e parentes, pois não sabem o que será servido. “Eles se julgam superiores às outras pessoas com hábitos ‘anti-saudáveis’ e tentam catequizar seus amigos e família”, atesta Tânia Rodrigues. Quando deixam de cumprir com seus objetivos, são tomados por sentimento de culpa e em seguida tornam-se ainda mais radicais, o que aponta o caráter doentio de seu comportamento. “A partir do momento em que a dieta ‘saudável’ se torna uma obsessão, em que a pessoa começa a se preocupar só com o valor nutricional do alimento, deixando de lado os aspectos sociais e sensoriais, já está no estágio de doença. Isso causa prejuízos para o indivíduo. Uma dieta realmente saudável não deve provocar esses transtornos e, sim, promover uma melhor qualidade de vida”, avalia a nutricionista. Segundo o professor Javier Aranceta, o ortoréxico se “enche” de produtos funcionais com o objetivo de ficar saudável, mas deixa de consumir 80% de outros que são mais importantes e básicos para o organismo.
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