Considerada uma das grandes epidemias do século, a depressão é mais comum entre as mulheres e pode ser porta de entrada para outras doenças

Reportagem: Julia Fernandes

Como combater a depressão

A depressão afeta o público feminino duas vezes mais

do que o masculino. Então, fique de olho!

Foto: Felipe Lessa (Abá Mgt)

A alegria de viver foi embora e os dias ficaram cinzentos. Até que o isolamento, a solidão e os pensamentos ruins tornaram-se seus únicos companheiros.

À primeira vista, esse cenário pode até parecer o enredo de algum filme triste, mas está presente na vida de muitas brasileiras. A responsável? A depressão. Pesquisas indicam que cerca de 20% da população brasileira já sofreu ou ainda será afetada pelo problema. E dentro desse número, as mulheres levam a pior.

"Estima-se que 11,2% sofrem de depressão e que a doença afeta o sexo feminino duas vezes mais do que os homens", afirma Taty Ades, psicanalista e especialista em relacionamentos e saúde mental da mulher (SP).

 

Culpa da modernidade

Vivemos em uma época em que tudo muda com uma velocidade inacreditável e os especialistas culpam esse fenômeno como o principal estopim para o desencadeamento da depressão. “As mudanças são muito rápidas, as informações também, e as pessoas não estão preparadas para isso. Precisamos de um tempo para processarmos uma informação, mas no dia seguinte já recebemos a notícia de que ela é ultrapassada e devemos correr para nos adaptarmos novamente ao que ‘se diz ser correto’”, salienta Taty Ades. Leonard F. Verea, médico psiquiatra especializado em Medicina Psicossomática e Hipnose Dinâmica e diretor do Instituto Verea (SP), complementa dizendo que as pessoas sofrem cada vez mais de depressão graças à má qualidade de vida, reforçada pela chamada sociedade do consumo, que impõe metas cada vez mais inacessíveis. “Precisamos mostrar serviço sempre, e essa necessidade nos torna mais frágeis e suscetíveis à falta de autoestima.”

Depressão

Além de transtornos na vida social, a depressão pode ser a porta de entrada

para outras doenças

Foto:  Felipe Lessa (Abá Mgt)

A chave da questão: da onde vem a depressão?

Em alguns casos a doença se manifesta após algum acontecimento traumático, como a morte de um familiar, o término de um relacionamento, desemprego, problemas financeiros, entre outros. Mas nem sempre esses fatos são o estopim. Algumas vezes seu surgimento se dá sem a presença de um acontecimento específico. Antes de tudo, é importante saber que a depressão pode ser reativa (com a presença de episódios que tenham causado traumas) ou congênita (hereditária e crônica), e que os dois tipos se manifestam por rupturas nas áreas cerebrais que transmitem a sensação de bem-estar ao corpo. Complicado demais? Calma que a gente simplifica! Nosso cérebro possui neurotransmissores, que são substâncias químicas usadas para a comunicação entre os neurônios. Um deles é a serotonina, responsável pela sensação de prazer e bem-estar.

Quando sofremos algum baque muito grande, a área do cérebro responsável por essa liberação sofre uma espécie de bloqueio e os neurônios não conseguem mais transmiti-la. Dessa forma, ficamos sem a sensação de alegria e felicidade. A única forma de corrigir o problema é fazendo o uso de antidepressivos, para estabilização do humor. É importante ressaltar que os medicamentos só devem ser utilizados quando prescritos pelo médico e sempre seguindo à risca suas orientações. Algumas pessoas evitam a ingestão dos remédios por acreditar que causam dependência, mas não é bem assim: “Hoje em dia temos medicamentos hipermodernos, que não causam dependência e muito menos efeitos colaterais”, garante. A psicanalista também comenta que no caso da depressão congênita, o tratamento deverá ser feito pelo resto da vida.

Doença incapacitante

Às vezes, quem desenvolve depressão pode sofrer julgamentos antes do problema ser diagnosticado, por não conseguir realizar as tarefas cotidianas, principalmente no trabalho. Por isso, é importante ter em mente que a doença é considerada incapacitante, já que a pessoa depressiva não consegue ter forças para realizar qualquer tipo de atividade. Como consequência, ela terá de lidar com diversos problemas. “Ela pode perder o emprego e a vida pode se tornar um verdadeiro caos. É preciso muita paciência, dia após dia, e tratamento adequado para que o quadro depressivo vá embora. Ele tende a durar em média um ano”, ressalta Taty Ades.

Se o emocional não vai bem, o corpo também padece

Além de causar transtornos sociais na vida da pessoa, o mal também pode ser a porta de entrada para a manifestação de outras doenças. Como a mente se encontra doente, o corpo começa a f†icar debilitado, a imunidade f†ica super baixa e aí começam a surgir os problemas. “A pessoa pode ter gripe constante, gastrite e úlcera (provocadas pelo estresse), dores no corpo (pela somatização), e ainda tonturas, enxaquecas e até síndrome do pânico. Além disso, a pessoa depressiva pode sofrer um quadro de anorexia nervosa, pela falta de apetite que a doença traz, ou então, comer compulsivamente desenvolvendo obesidade”, alerta Taty Ades.